From bitter searching of the heart: uma análise inortodoxa do poema A Villanelle for our Time, de Frank Scott

A VILLANELLE FOR OUR TIME – F. R. Scott (1899-1985).

From bitter searching of the heart
Quickened with passion and with pain
We rise to play a greater part.

This is the faith from which we start
Men shall know commonwealth again
From bitter searching of the heart

We loved the easy and the smart,
But now, with keener hand and brain,
We rise to play a greater part.

The lesser loyalties depart
And neither race nor creed remain
From bitter searching of the heart.

Not steering by the venal chart
That tricked the mass for private gain,
We rise to play a greater part.

Reshaping narrow law and art
Whose symbols are the millions slain,
From bitter searching of the heart
We rise to play a greater part.

A Villanelle (ou villanesque) é uma forma poética fixa, consistindo de quatro tercetos e um quarteto, com uma estrutura de versos sob o padrão [A’, b, A’’], [a, b, A’], [a, b, A’’], [a, b, A’], [a, b, A’’], [a, b, A’, A’’]. Não possui métrica estabelecida e alterações sutis dos refrãos (A’ e A’’) são permissíveis.

A Villanelle acima é de autoria de Frank Scott (também chamado de F..R. Scott), poeta e intelectual canadense. Travei conhecimento com a mesma a partir de um disco do também poeta, autor e músico Leonard Cohen (Dear Heather, 2004). Existem análises da mesma acerca de seu contexto político, enfatizando a necessidade de um direcionamento sincero dos cidadãos (“bitter searching of the heart”) para cumprir seu destino manifesto (“rise to play a greater part”) de comunhão fraternal (“men shall know commonwealth again”), o que poderia equalizar-se numa genuína democracia (ou social-democracia, pois de fato tal era a fé política de Frank Scott).

Não é o aspecto que mais me agrada no poema, contudo. A mim, mais interessante do que o cartaz político pintado é a imagem de superação humana evocada pelo poderoso refrão: “from bitter searching of the heart/we rise to play a greater part”. Ora, ainda que o poeta diga “we rise”, ou seja, ainda que ele fale no coletivo, a angustiante procura de si é algo que evidentemente só na solidão da individualidade pode ocorrer – apenas o indivíduo possui um íntimo, um “coração”, para perquirir. Coletividades, e isto bem sabemos, não procuram: seguem ordens.

Portanto, existe um movimento – implícito – no poema que parte do individual para o coletivo (“this is the faith from which we start”), movimento este calcado na crença de que a emancipação, seja qual for, atrela-se ao pré-requisito da dura busca pelo conhecimento de si próprio (“bitter searching of the heart”). Repito-me nesse ponto apenas para enfatizar a recorrência desta crença na história das ideias da humanidade. Pois com essa consideração em mente podemos ouvir, no refrão do poema, ecos que partem desde o “conhece-te” grego – no que poderíamos dizer que tal refrão encapsula toda uma história do pensamento moral ocidental – até a típica introspecção da filosofia oriental, como no exemplo do ascetismo monástico budista, voltado à contemplação do que é sagrado e constante, ou à essência daquilo que é mutável, na existência, a partir da rejeição do supérfluo na mesma (mais uma vez, “from bitter searching of the heart”).

Curiosamente, o refrão funciona quase que como um mantra; a bem da verdade, a obsessividade dos versos é algo bastante característico em Villanelles. Ao musicá-lo, Leonard Cohen – que foi monge budista, diga-se de passagem – certamente percebeu essa nuance.

Evidente, o último terceto e o quarteto final são de conteúdo moral inarredável. Configuram tais versos uma projeção deceptivamente otimista, embora de difícil desassociação política: diz o poeta que, se mantivermo-nos imperturbáveis em nosso compromisso íntimo – “bitter searching of the heart” – não nos vincularemos ao desejo de ganho próprio em cima de nossos concidadãos (“not steering the venal chart/that tricked the mass for private gain/we rise to play a greater part”). Contudo, observe no terceto o emprego do termo “mass” (significando a “massa política”); seu uso pelo poeta não é inordinário. De fato, não são as massas que se emancipam – pois elas foram enganadas pela promessa de lucro (“tricked the mass for private gain…”). Por isso, é apenas aparentemente otimista a perspectiva levantada pelo poeta.

Por outro lado, aqueles que seguiram a busca amarga por si mesmo, estes sim, não foram enganados por gráficos e estatísticas ou promessas nem docilidades práticas (“we loved the easy and the smart/but now with keener hand and brain/we rise to play a greater part”). Estes sim, ergueram-se para atuar no maior palco da existência. E fazendo isso, redimiram e redefiniram os limites da experiência humana, como o quarteto final aponta (“reshaping narrow law and art/whose symbols are the millions slain/from bitter searching of the heart/we rise to play a greater part”).

Dessarte, qualquer forma de emancipação, seja política, moral, ou espiritual, sob qualquer hipótese, só se fará presente ante a prévia e obrigatória perquirição interna, individual, solitária. Já ficou claro agora que, em outras palavras, foi o conteúdo humanístico e individual que me impressionou no poema, e não seu verniz político; é o chamado à superação de si próprio, a evocação de Zaratustra em Nietzsche, a angústia do cavaleiro da fé em Kierkegaard, o retiro de Gautama ao deserto. É a coragem de, desprezando o que é fácil e prático, ir ao angustiante encontro do que é verdadeiro – “bitter searching of the heart” – para então no verdadeiro encontrar lugar – “we rise to play a greater part”. E este lugar, forçosamente, seria a nossa própria humanidade.

Finalmente, o título do poema estabelece: é uma villanelle para a nossa era. E se o poema incentiva a emancipação humana, seu título pode indicar que a mesma é própria de nossa época. Como não desejariam assim os historicistas! Mas pergunto: qual época da História não se pretendeu própria para empreender tal emancipação? Vimos que esta vontade de humanidade é algo recorrente na humanidade. Novamente, rejeito o caráter político, o chamado às armas revolucionário que alguns notam aqui. Mais relevante é o fato de que nós não nos percebemos emancipados; isto é o suficiente para pretender emancipar-se: “from bitter searching of the heart, we rise to play a greater part”.

#02 – Emilio Carrere (1881-1947), “Jardín Nocturno”

Es el dolor de amar, de vivir, de morir,
lo que va en mi tonada de cantor taciturno;
del corazón el ritmo cordial podéis oír
como una fuente oculta de este jardín nocturno.

¡Amar! ¡Oh paraíso que hace el vivír más suave!
Vivir, rueca del tiempo absurda e inconsciente,
y el terror ultrahumano de la carne que sabe
que tiene que morir irremediablemente.

En mi jardín nocturno es trágica la flora,
la miséria que gime y el fracaso que llora,
la horda de los ex hombres que su clamor levanta.

Yo recojo en mi verso esta angustia inmortal
de vivir, y en las frondas del jardín nocturnal
soy como un ruiseñor triste y ciego que canta.

#01 – Raymond Knister (1899-1932), “Change”


CHANGE
I shall not wonder more, then,
But I shall know.

Leaves change, and birds, flowers,
And after years are still the same.
The sea's breast heaves in sighs to the moon,
But they are moon and sea forever.

As in other times the trees stand tense and lonely,
And spread a hollow moan of other times.

You will be you yourself,
I'll find you more, not else,
For vintage of the woeful years.

The sea breathes, or broods, or loudens,
Is bright or is mist and the end of the world;
And the sea is constant to change.

I shall not wonder more, then,
But I shall know.
(Raymond Knister, 1899-1932).