Discurso de Orfeu

Existe um aspecto de minha alma muito particular; se é parte do todo, com o todo se identifica, logo, é alma também. Mais interessante, no entanto, é isto: é um aspecto que se projeta sobre si próprio, como ondas que se levantam apenas para quebrar em alto-mar.

“- O que desejam as vagas?

– E quem pode dizer?”

O oceano tem suas razões; eu tenho as minhas. Pois no caso das minhas vagas, minhas marés particulares, sei bem. Não anseia por coisas materiais este “aspecto de minha alma que se projeta sobre si próprio”. Sabes bem o que quero dizer por “coisas materiais”. E o que quero dizer é que este aspecto meu, esta parcela de minha alma, anseia, antes e justamente, por si mesma.

É um ensimesmamento, portanto. Ao cabo e ao fim, falar sobre a própria aldeia é falar de si próprio. Mas como falar do que não se conhece?

Eu sei o que minha alma anseia, mas não a conheço. Sim, é evidente para mim: minha alma é zombeteira, quanto mais eu a persigo, mais ela se esquiva de mim. Jogo de sombras, e pobre de mim, que estou sempre a procurá-la. A tal ponto que pondero, terei eu essência? Se tenho, é certo que não consigo alcançá-la com minhas mãos, porque minhas mãos são muito limitadas; algo sempre escapa, como água entre os dedos. E quando assim isolado de mim mesmo, só me restam duas opções, obliterar-me no nada onde tantos chafurdam ou contornar o rio caudaloso dessa alma arredia.

Ora, a arte supre com sua linguagem maravilhosamente abstrata, imaterial, essa ânsia pelo que me escapa, pelo que não posso tocar. Das artes, a música é a mais excelentemente abstrata. É importante isso, porque como se conclui, o que eu não posso tocar é também aquilo que me constitui na maior fundamentalidade. Por isso escrevo, labuto, reflito e faço da melodia meu barco, esperando pelo milagre desta comunhão de mim comigo mesmo. Às vezes, milagre dos milagres, faço a travessia do rio. E milagre dos milagres, os sons e palavras me tocam em lugares que jamais imaginava abrigar; nesses momentos, penso que devo, sim, ter alguma essência. É misterioso, mas é onde estou.

E apesar de misterioso, não falo de coisas misteriosas.

Pelo contrário, falo de coisas pragmáticas. Perceba, clara e objetivamente, que é uma questão de estratégia. Eu tenho uma ânsia e preciso saciá-la. Para tanto, audaciosamente, eu uso artifícios que eu consigo compreender para chegar no que eu não compreendo. Tudo o que posso compreender me entesoura informações. Na verdade, a história de tudo o que existe entesoura informações. E se o que eu digo também é compreensível, abrigará tesouros para o Outro. E é assim que, se Outro de fato me compreende, se existe um ponto em comum entre eu e o Outro, então pode ser que ele tenha anseios semelhantes aos meus. E se os tem, gosto de pensar que talvez meus anseios não sejam tão irrespondíveis assim. Talvez não precise ser tão difícil atravessar o rio, ou responder as marés. Portanto, canto para o provável Outro, mas não de forma abnegada – eu busco a mim mesmo nele, também. Mas de igual forma, sei que ele buscará por ele em mim.

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