Apologia do Diletante

Na mitologia grega, foi a deusa Deméter quem ensinou ao jovem Triptolemus os mistérios do cultivo do solo. A agricultura, a partir dali desenvolvida, se tornou uma atividade necessária à subsistência da vida, mas, como ensina o mito, não só; desde seu surgimento, foi percebida a íntima relação do cultivo do solo com o cultivo de si próprio. Por isso, relatam os mitos que a dádiva da técnica foi acompanhada pela dádiva dos mistérios Eleusinos: Deméter não apenas ensinou Triptolemus a cultivar o solo, mas deu-lhe os segredos que informariam o sentido mais profundo desse cultivo: o que se deposita no solo deve retornar à superfície e oferecer seus frutos, e viver por meio destes.

Essa é a promessa recorrente da vida espiritual da humanidade: a eternidade, a transcendência da matéria, a libertação do ciclo vida/morte. O viés prometido de vida eterna através do cultivo de si e de seus atos, esse sentido maior que proveria dos frutos colhidos da própria alma, foi epitomizado, inclusive, pela enunciação cristã: “comei e bebei, pois este é o meu corpo”.

Nessa consideração, quando o antigo agricultor grego percebia os frutos de sua colheita, por ele mesmo previamente plantada, ele estava não apenas provendo a sua subsistência e a dos seus, mas participando de um mistério maior: ele estava experimentando a perpetuidade da vida, pois o que foi plantado e o que vingou são a mesma coisa, tornada diferente apenas pelo cultivo, como um grão de trigo e uma espiga de trigo são, essencialmente, trigo. E assim, o cultivo do espírito não seria diferente dessa lógica – na verdade, é em tudo análogo. Afinal, depositar algo no solo é abdicar do controle das mãos, da proteção dos olhos; é entregar-se e entregar o que se planta à promessa da provável (mas não concreta) colheita. E por isso, envolve certa abnegação, mas mais do que isso: o cultivo, em última instância, é um ato de fé.

Aqui, temos um apenas aparente paradoxo. Pois por ser um ato de fé, o cultivo deve subsistir em si mesmo; ora, sabemos que o cultivo, seja do que for, é sempre realizado com uma esperança de frutos vindouros. No entanto, esses frutos estão no território da incerteza. Não sabemos qual será a forma, a quantidade, o gosto exato ou o aspecto de tais frutos – isto se vingarem frutos. Por isso é um ato de fé, pois é um depósito de esperança na incerteza. E por isso deve subsistir em si mesmo, pois a única certeza que aquele que cultiva tem, efetivamente, no fim do dia, é a certeza de seus atos praticados. No que o ato de cultivar assume uma conotação moral evidente, pois não se pode obrigar alguém a cultivar o que quer que seja – o cultivo é uma escolha individual, autônoma. E assim, além de ser um ato de fé e um ato moral, podemos ver no cultivo um ato, deliberado, de amor.

Em latim, o termo apropriado para uma atividade realizada com amor e cuidado é deligere, (na acepção de “apreciar o que se faz”). É deste termo que provém o italiano dilettante, em português “diletante”, designando originalmente o aficionado por música, mas num sentido maior significando a pessoa que faz algo por prazer, sem ter obrigação ou sem ser profissional no assunto.

Este texto é uma apologia do diletante. O indivíduo que busca excelência no que faz pelo prazer que encontra em fazer o que faz; o indivíduo que despreza tudo o que lhe parece excessivo na busca desta excelência – rendimentos, comprometimentos escusos, os excessos do mármore a ser esculpido -, pois o seu foco é claro. Acima de tudo, este texto é uma apologia ao indivíduo que percebe a veleidade do que se costuma chamar por aí de “profissionalismo”, “sucesso”, “status” e outros termos afins. Nada disso lhe encanta os ouvidos; o diletante não segue líderes, não adere a doutrinas, não compra discursos.

O verdadeiro diletante sabe que nós somos, afinal, aquilo que buscamos. E que a única colheita possível é a que advém de nossa própria semeadura.

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