A Liberdade em Mileto (primeiro esboço)

Tales de Mileto (640 – 550 a.c.), até onde se pode saber, foi o primeiro “filósofo” da História. Teve a iniciativa de propor respostas aos mistérios de seu entorno – a origem do mundo, a essência das coisas – baseadas na pura observação, descartando as propostas mitológicas e construindo no processo uma estruturação lógica que, embora hoje em dia soe rudimentar, se apresenta radical se comparada com os métodos da época. Considerando que o objetivo de quem pesquisa sobre algo é aprender a verdade que reside neste algo, é apenas coerente supor que Tales, ao chegar em sua famosa conclusão de que a água é a essência das coisas, e propor uma explicação lógica baseada solitariamente na força de suas observações, tenha dado por certo de que havia chegado na verdade que tanto buscava. Mas Tales, de forma mais importante do que ter se preocupado com essas questões, também formou discípulos. E com isto, permitiu o desenvolvimento (informal) de uma “escola” própria, hoje chamada de Escola de Mileto, formada pelos seus ilustres expoentes: ele mesmo, Anaximandro e Anaxímenes.

Anaximandro foi discípulo de Tales, e Anaxímenes foi discípulo de Anaximandro. E aqui reside algo de interesse extraordinário, ainda que muito pouco pontuado, e talvez pela própria dificuldade de desenvolvimento. Explico. Tales elegeu a água como o princípio de tudo o que existe, e proferiu uma explicação lógica para isso. Seu discípulo, do mestre discordou.

Para Anaximandro, o que de fato havia principiado e habitava tudo o que existe era o apéiron, uma substância diferente dos quatro elementos, sempiterna embora incriada (nunca surgiu, sempre existiu). É formidável contemplar o apéiron de Anaximandro, especialmente pela diferença que ele estabelece, com suas ideias, a Tales. Percebe-se que o apéiron possui características quase místicas (ou místicas de fato), o que levou muitos comentadores a considerarem a obra de Anaximandro um retrocesso lógico, sob certa forma. De minha parte, prefiro visualizar a obra de Anaximandro como um salto, um salto, como disse, formidável, pois a partir da discórdia – da crítica de seu mestre – ele consolidou a prática filosófica. Tales foi o primeiro filósofo, mas poderia ter sido apenas um excêntrico, um caso isolado, não fosse a presença autoral, crítica de seus discípulos. Pois não só Anaximandro discordou de Tales, como por sua vez, seu próprio discípulo, Anaxímenes, propôs outra resposta, completamente diferente: a origem das coisas não residiria na água, nem no apéiron, mas no próprio ar. Pois bem, a pergunta que ninguém ousou fazer até agora, portanto, é: porquê Anaximandro discordou de Tales?

A resposta que todos tem na ponta da língua é também a mais reducionista e insatisfatória. Corre pelo argumento de que Anaximandro percebeu, pelo uso da razão (lógos), as incongruências lógicas na obra de seu mestre, e padeceu do mesmo mal sob a ótica de Anaxímenes. Ainda que isso seja verdade, é insatisfatório porque não explica a liberdade que é necessária para se discordar de um professor, um mestre, ou simplesmente uma autoridade. O que é corriqueiro na história das ideias é a repetição, a emulação, a institucionalização de uma doutrina. Nada disso é perceptível na Mileto dos séculos VI e V a.c., senão pela atitude demonstrada por seus famosos expoentes: a crítica, ou a liberdade para pensar. Faz-nos indagar que tipo de ensinamentos Tales proferia.

 

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