25.06.2014 = 11:02; Arlington, Virginia, EUA

Acompanho os desdobramentos pré-campanha eleitoral presidencial brasileira com desânimo. O debate de ideais e ideias, como sói acontecer em tais ocasiões, perde espaço para a polarização rasteira da política. Isto é, em vez de deitarem as ideias acerca de um governo ideal, os concorrentes preocupam-se com ataques e tentativas de manipulação popular; é a hora dos demagogos, dos comunicadores, do marketing de linha mestre e do dia-a-dia.

No espectro político ninguém se salva de tal confronto. O leite derramado suja todas as camisas, não importando o tecido ou a cor. A atmosfera se torna beligerante, e como um delírio coletivo, os militantes mais fervorosos – e devo dizer, de ambos os lados – frequentemente esquecem que, via de regra, todo cidadão deseja o melhor para seu Estado e para si mesmo. Vê-se então o nível da esquizofrenia política que assola o país: nosso vizinho se torna nosso inimigo, muito embora deseje, provavelmente, o mesmo bem-estar ao qual nós aspiramos.

É uma infelicidade, mas a curto prazo a doutrinação pelos discursos do fígado possui um alcance muito maior do que o chamado à reflexão. Ora, desde Platão, todos os grandes pensadores sociais tinham uma preocupação em comum: resolver um determinado problema, um problema que era crucial e fundamental para seu tempo: como objetivar uma sociedade justa? As diferentes propostas desenvolvidas, por exemplo, por Marx e Stuart Mill, antes de derivarem por uma insensibilidade política qualquer, derivam, antes, de diferentes premissas estabelecidas por esses homens; aonde essas premissas são válidas e aonde elas não se sustentam, este devia ser o foco de qualquer conversa, quiçá de um debate político.

Eu falo, eminentemente, de uma postura particular. Não me importa o homem, mas sim as suas ações, as suas ideias; eu separo estas do homem, pois por esta forma dou a segunda chance ao indivíduo que errou, mas não evito a punição para seu erro. Numa democracia, deve-se cultivar o estudo, posto que este é o adubo dos debates; mas o debate, qualquer que seja a espécie, será sempre de ideias e não de personalidades. Aquele que ignora este fato se reserva para a escuridão da História; a democracia é um espírito que sublima tais paixões, porque se baseia na liberdade, e esta é de uma fibra moral indescritível. Portanto, se enlevado me vejo ao pensar a liberdade e a democracia, cansado fico quando leio colunistas e ex-presidentes vociferando palavras destinadas a dividir, para conquistar.

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